05 de abril 2019
Esta história de Sucesso de Inclusão em uma escola comum me foi enviada por uma amiga querida, leitora assídua deste site. Ela vivenciou a experiência abaixo com um familiar.
Diante da alegria alcançada, me disse que gostaria de compartilhar sua história conosco para tentar contribuir com nossos leitores.
Por questões éticas, também manteremos identidades fictícias ao longo deste texto.
Um pouco da história de J.M.C.
J.M.C. nasceu de uma gravidez conturbada, pois sua mãe bebia e fumava muito! Nasceu fraquinho e passou, nos dias que se seguiram ao parto, pela Síndrome de Abstinência. Situação complicada e difícil, pois quase nada se pode fazer diante daquele sofrimento da criança.
Esclarecimento
A Síndrome de Abstinência é o conjunto de modificações orgânicas que se dão em razão da suspensão brusca do consumo de droga geradora de dependência física e psíquica. No caso de J.M.C., foi o álcool e cigarro.
Como a mãe de J. consumia álcool e cigarro com frequência, mesmo durante a gravidez, o pequeno J.M.C. que estava sendo gerado em seu ventre também recebia em seu organismo estas substâncias tóxicas que prejudicaram seu desenvolvimento e causaram dependência tanto no período da gestação, quanto após seu nascimento.
Por isso, esta amiga nos relata o sofrimento do bebê recém-nascido. Existe um sofrimento orgânico e psíquico deste bebê até que seja superada a fase de desintoxicação. Na verdade, é como se o bebê fosse o usuário da droga e ao ficar sem consumir, passa pelo processo de irritabilidade, taquicardia, náusea, irritação, insônia, alucinações visuais, táteis e auditivas, ansiedade e demais sintomas.
Estes fatores deixam sequelas que podem ser superadas se forem bem estimuladas por familiares e profissionais envolvidos. Aqui no site, temos o exemplo de D.M.O., Primeiro Sucesso de Inclusão Positiva e, agora, de J.M.C. que com estímulos adequados e carinho conseguiram descobrir seu potencial e serem felizes.
Retomando...
A vida seguiu, cheia de altos e baixos, com os avós ajudando como podiam, pois moravam em cidade distante. J.M.C. se tornou uma criança quieta demais, extremamente tímida. Sua avó, educadora, percebeu que algo estava diferente e procurou o pediatra que o acompanhava desde a hora do nascimento até hoje, nos seus 14 anos (2014).
Muitos exames e testes foram realizados... diagnósticos diversos apresentados...
J. teria déficit de atenção? Não.
A família sofria na busca por soluções.
Na creche, onde ficou em tempo integral, do 1º aos 5 anos de idade, J. era carinhoso e não brigava com os coleguinhas; sabia dividir e seguir orientações, mas tinha seus momentos de "ficar na dele"...
Sua mãe decidiu separar-se e, desde os 5 anos, J.M.C. e seu irmão foram criados pelo pai. Decorridos 3 anos, a mãe teve câncer e voltou para casa, mas só viveu mais 7 meses, morrendo aos 29 anos.
J.M.C. completaria 7 anos somente em meados de 2006. Por este motivo, ainda na lei antiga no Estado do Espírito Santo, entrou para o 1º ano do ensino fundamental um pouco mais tarde. O aproveitamento de conteúdos nos anos escolares foi se arrastando, pois J. "voava muito" durante as aulas.
Este comportamento já havia sido diagnosticado como “momentos de ausência”, pois pequenina parte de seu sistema nervoso central estava custando a reagir aos estímulos ofertados (amadurecimento neurológico). E quando J. "aterrissava", já tinha perdido parte "importante" da matéria, que era muito extensa e não tinha como os professores voltarem a explicar.
Assim foi até o 7º ano, quando veio a repetência. Sua avó, que sempre o acompanhava nos estudos e que ia frequentemente às escolas lá de sua cidade, na tentativa de um entendimento da situação, nada conseguia, pois, as escolas diziam que era preciso "cumprir o programa".
Diante deste fato, a avó trouxe J.M.C. para Minas Gerais, para morar com ela e aqui estudar. Sua matrícula foi feita em uma das escolas particulares da cidade, onde J.M.C. e sua avó foram muito bem acolhidos. Foram realizadas entrevistas com a presença de avó e neto juntos e, em outra ocasião, separados.
Deste momento em diante, estabeleceu-se um vínculo de confiança e trabalho parceiro, em sintonia, onde a situação era trabalhada com amor, sem que J. percebesse nenhuma diferença, embora soubéssemos que a atenção pedagógica e emocional a ele dedicada era muito especial, com respeito, dignidade, dedicação, profissionalismo e muito amor!
J., que era muito tímido e vivia escondidinho pelos cantos, era sempre estimulado a participar de grupos de estudos, apresentação de trabalhos, a comentar acontecimentos da aula, a fazer esportes na escola.
Como um passarinho que alça seu primeiro voo, J.M.C. foi buscando seu direito de "ser", ajudado por toda equipe do colégio, que em uma sincronia única trabalhava e buscava a saída: direção, orientadores, professores, equipe disciplinar... Todos!
Sua avó, com seus 50 anos dedicados à educação (professora desde os 17 anos) nunca tinha vivenciado coisa igual! Inclusão?! Não, aquilo era a verdadeira prática do mais puro amor e profissionalismo! Todos cuidavam da educação de J.M.C.!
Atitudes Pedagógicas que contribuíram para o desenvolvimento de J.M.C.
A J.M.C. eram dadas responsabilidades, numa escala progressiva: desde as mais simples até as mais difíceis que envolviam toda a turma como, por exemplo, ajudar a arranjar patrocínio para as camisas do torneio da escola e desenhar a camisa do seu time, uma vez que gosta muito de desenhar. Seus desenhos passavam pela apreciação dos colegas, assim como os desenhos dos demais. Não havia superproteção.
Se J. não se sentia preparado para realizar uma prova no dia marcado, a escola proporcionava a ele uns dias a mais de estudo até que se sentisse seguro. A avó fazia essa parceria com a escola.
O SOE, Serviço de Orientação Educacional, e os professores conversavam toda semana e traçavam caminhos pedagógicos (ensinamentos mais concretos), que pudessem facilitar a compreensão do conteúdo para J.M.C., mas, de forma que não atrapalhasse a turma como um todo.
A família seguia estas orientações também nos estudos de casa junto a J.M.C..
Quando novas oportunidades precisavam ser dadas a ele, estas eram ofertadas aos demais alunos no mesmo momento, sem que nenhum nome fosse citado.
Muitas vezes, as provas mais longas e mais difíceis eram feitas em dois dias, ou em duplas.
Os trabalhos eram ofertados de forma que os conteúdos fossem bem concretos, muitos feitos em grupos, sob a orientação dos professores.
Alguns benefícios desta dedicação da Escola e Família para J.M.C.
J. começou a ter prazer em convidar colegas para ir a sua casa e passou frequentar a casa de seus colegas.
Em junho daquele ano, J. já era outro rapaz: risonho, brincalhão, solto, confiante, feliz!
A timidez e baixa estima estavam sendo vencidas.
As crises de ausência foram diminuindo e, hoje, 2014, são quase imperceptíveis e rápidas, além de raríssimas.
Naquele 2º bimestre não precisou fazer recuperação de nenhuma disciplina.
Milagre? Sim, o milagre do amor, pois nenhuma avaliação foi "dada de presente" a ele, que, já confiante e consciente, batalhava pelo seu sucesso.
Observação
Queridos leitores, vocês observaram em quanto tempo J.M.C. apresentou melhora no seu desenvolvimento emocional, pedagógico e social?
Com apenas 5 (cinco) meses de atenção e ajuste ao seu ritmo de aprendizado, a escola interessada em incluir e amar conseguiu melhorar a qualidade de vida de seu aluno. A família continuava presente como nos anos anteriores, nas outras escolas. Porém, a diferença só aconteceu quando uma escola também resolveu se fazer presente na vida de J.M.C.
Educadores, reflitam sobre isso! Observem o tamanho de nossa responsabilidade na vida de uma família inteira! Aceitem este desafio em suas escolas e sintam a gratidão eterna de todas as famílias que irão se beneficiar da sua atenção e carinho.
Esta sensação de gratidão não tem preço!!!
Finalizando, por enquanto...
J.M.C. não se tornou o primeiro aluno da classe, porém, é aquele que, através do amor e dedicação, aprendeu que pode confiar em si mesmo e se esforçar para conseguir alcançar o que deseja!
J. passou para a série seguinte sem nenhuma recuperação final. Está feliz, pleno de si. Voltou para sua cidade natal, cursando o 8º ano em outra escola. Emocionalmente fortalecido!
A equipe desse colégio mineiro continua sua caminhada de braços abertos para acolher "outro João".
Cada um destes profissionais e Todos são personagens vivos e amados na história de vida desta família!
Se você também tem uma história de sucesso de Inclusão Positiva e deseja compartilhar conosco, envie para o e-mail contato@inclusaopositiva.com.br
Família
Aproveito para destacar a importância crucial da família nesta história! Esta avó, pai e demais familiares merecem muitos aplausos por não desistirem de tentar novas formas de aprendizagem para J.M.C. Toda família tem que persistir para conseguir o melhor desenvolvimento da pessoa que apresenta algum tipo de dificuldade, qualquer que seja. Insista sempre na busca pelo melhor!
Ao encontrar um profissional que diga "não tem mais jeito, ele(a) não aprende mais nada", minha sugestão é que a família busque outro profissional mais motivado, persistente e com técnicas diferenciadas de trabalho. Faça como a família desta história! É mais trabalhoso, mas vai valer a pena!!!
Referência Bibliográfica
http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADndrome_de_abstin%C3%AAncia
em: 10fev2014
http://www.infoescola.com/drogas/sindrome-de-abstinencia/
em: 10fev2014
Até a próxima história!
Arquivo: Fevereiro 2014